Máscaras
Tenho uma máscara. A máscara da comodidade. Ponho-a quando fico em casa e, assim, saio de casa. Eu fico em casa enquanto a máscara sai com esse monte de carne que toda a gente julga ser eu. Não o sou e ninguém parece notar. Eu estou guardada na caixa de tralhas especiais: o meu caderno de desenho, os meus cadernos de escrita, os meus livros, os meus amuletos, os meus amores. E eu estou perdida lá para o meio, mas bem ciente de quem sou. Aqui perdendo-me eu encontro-me; não preciso da máscara porque sou eu. A máscara começou por cobrir pequenas partes de mim de que eu não gostava - ou achava que os outros não gostavam - e então eu deixei-a. Ela foi-se multiplicando, mais forte que eu, e foi deixando essas pequeninas partes na caixa. Agora eu toda estou na caixa e a máscara anda por aí por mim, sem mim. A máscara não sou eu e é o que mais odeio na minha existência; ela tirou-me de quem eu era e agora não sou nada senão uma alma sem corpo - que só o ocupa quando está sozinha e quando a máscara não vê.
Tal como eu, muitos outros são assombrados por máscaras; porém, alguns já a têm tão entranhada dentro de si que a alma acaba por abandonar por completo a esperança de voltar ao seu corpo. Tenho pena que essas pessoas não fossem suficientemente fortes para quebrarem a máscara. Pensa-se que somos fortes por passarmos e ultrapassarmos o terror que é viver como um humano. Acidentes, doenças, problemas, desamores, desilusões. Nada disso se compara à luta interior, à luta da alma com a máscara pelo corpo e pela mente. A alma protege a mente, a máscara esvazia-a e esta de nada serve vazia.
É uma maldição andar perto de pessoas que somente têm a máscara. É que as máscaras ajudam-se umas às outras a entranharem-se nas pessoas e as pessoas não se apercebem até desaparecerem e mesmo aí o corpo não se lembra, portanto não há volta atrás. Só o ser transcendente interior sabe disso da máscara e só ele a pode destruir.
Tenho pena não te poder ajudar, mesmo que quisesse, a sair da máscara. Ela já és tu, és, agora, a máscara que cobre esse monte de carne de futilidades, de exagero, de ânsia por ser adorada, mas completamente vazia por dentro. Perdoa-me, mas já te tentei ajudar demais e já me destruí demasiado por isso mesmo.
Tu e esses pedaços de carne a quem chamas amigos e esses corpos que ajudas a destruir que te julgam amiga vão acabar no buraco de amargura e, por mais que por alguns eu até queira, não me vou atirar convosco para vos tentar salvar. Vou-me embora. Posso até ir com as lágrimas nos olhos pelas almas que queria proteger, mas vou avançar esperançosa para aquelas que acredito ainda poder ajudar. Perdoa-me, mas eu preciso de mim.
Enquanto escrevo, vejo a minha máscara aninhada a um canto do quarto, a desaparecer aos pouquinhos e a chorar aos soluços. Por segundos tive pena dela, mas será que ela sentiu essa compaixão enquanto me foi apagando?
O final da página é o final da minha máscara. Vou lutar, cada vez mais ciente do que quero, contra ela. Eu serei novamente eu e a caixa vai ser guardada no meu coração porque sempre me protegeu, mesmo quando eu deixei de a proteger. Vou salvar os que puder, enquanto puder e quem quiser ser salvo que corra comigo que eu protejo-vos. Sempre.
As máscaras só vos destruirão se as deixarem.

